Sertanejo universitário feminino – as minas conquistando um novo espaço

São tempos sombrios para a ascensão da mulher no nosso país, há muito pouco que se comemorar quando se trata de ruptura dos padrões. Mas, em contrapartida das questões políticas e sociais, é interessante falar sobre o que está acontecendo no mundo musical, mais especificamente no sertanejo universitário: o espaço vem sendo preenchido por mulheres cada dia mais.

Da música sertaneja de raiz, sempre ouvimos falar sobre uma ou outra dupla feminina emblemática, para citar duas delas: as “Irmãs Galvão”, admiradas até hoje pela importância que tiveram na época dentro da música sertaneja e a dupla “As marcianas”, que ganharam com um álbum lançado em 1986, o primeiro disco de ouro e platina de uma dupla sertaneja feminina. Apesar de toda garra e reconhecimento que essas mulheres tiveram para a época em que viviam, estamos falando de duplas fortemente ligadas ao expoente da música caipira e como sabemos e percebemos, de alguns anos para cá, o cenário do sertanejo está se modificando e ganhando novos contornos.

A maioria dos jovens hoje em dia, tem no Pen drive do carro diversas músicas de Jorge e Mateus, Henrique e Juliano e Matheus e Kauan ao invés de Milionário e José Rico, por exemplo. O que quero dizer é que o novo rosto do sertanejo, intitulado como sertanejo universitário é quem atualmente produz os hit’s do momento que viralizam nas redes sociais. Esse novo tipo de sertanejo possuía até um ou dois anos atrás, representantes maioritariamente masculinos, são inúmeras as duplas compostas por homens e cantores solos, que foram reconhecidos  e alcançaram o sucesso. As letras quase sempre falam sobre a exaltação masculina, bens materiais, e a mulher como coadjuvante ou objetificada no discurso de poder do homem. Era como se a cara do sertanejo universitário tivesse que ser unicamente masculina para fazer sucesso e ganhar visibilidade no país todo.

Vale lembrar que Paula Fernandes, uma grande representante da música sertaneja foi a precursora desse sertanejo feminino na atualidade, mas seu estilo é bastante diferente do sertanejo universitário, o sertanejo “sofrência”, que é ouvido nos quatro cantos do Brasil, por crianças, jovens e adultos, e é nesse espaço que sempre foi preenchido por homens que as coisas vieram se modificando com força.

Timidamente, vimos surgir duplas como “Thaeme e Tiago” e “Maria Cecília e Rodolfo” que nos mostraram a pontinha do iceberg: a voz feminina tinha tudo para brilhar no cenário do sertanejo universitário também. A evolução foi gradativa, as mulheres aos poucos foram chegando novamente em um espaço delicado para elas, e hoje surgem diversas duplas sertanejas puramente femininas e cantoras em carreira solo também que estão ganhando o sucesso e a admiração de todos os amantes do estilo musical.

Para citar os nomes da atualidade: falemos primeiro de Simone e Simaria, a dupla de morenas mescla sertanejo com forró. As duas irmãs abandonaram a composição do backing vocal de Frank Aguiar e retomaram a carreira assumindo o microfone principal, estão estouradas com a música “Meu violão e o nosso cachorro”.  Marília Mendonça é também umas das cantoras do momento, a goiana já brilhava há tempos por trás das vozes masculinas, pois, ainda menor de idade, se destacou como compositora, escrevendo grandes sucessos como “É com ela que eu estou” na voz de Cristiano Araújo, “Até você voltar” e “Cuida bem dela” sucesso de Henrique e Juliano. Naiara Azevedo é outro destaque do sertanejo universitário feminino, a cantora começou quando criança sua carreira e em 2011 foi reconhecida pela paródia feminista que fez com a música “Sou foda”, já que esta, passava uma imagem um tanto quanto negativa da mulher. A versão “Coitado” foi aplaudida por muitas mulheres que se sentiram “vingadas” com a nova versão. Atualmente, em uma de suas músicas: “50 reais”, dividiu o palco com Maiara e Maraísa, a dupla sertaneja que está estourada no Brasil todo com grandes sucessos. As irmãs gêmeas Maiara e Maraísa, começaram a carreira muito jovens e no ano de 2013 alavancaram a carreira com o lançamento do clipe “No dia do seu casamento” que possui milhões de visualizações. A  nova música de trabalho da dupla, lançada no DVD, é a música “10%”, a mais tocada dos últimos meses. As irmãs viraram referência no meio musical e além de terem pela frente uma carreira brilhante, são elas as maiores apostas femininas do sertanejo.

Do que fala a música das minas? 

Destacando algumas coisinhas importantes, as principais músicas carregam em si um eu lírico feminino “empoderado”,  que rompe com padrões culturais e com os papéis de gênero (o que é feito por homem e o que é feito por mulher). Para exemplificar, deixo um trecho da minha música preferida da dupla Maiara e Maraísa “Mexidinho”:

“Onde cê tava?
Com quem andava?
O que é que eu faço
Por que é que eu não te largo?
É por causa que eu faço mexidinho
Faço gostosinho, eu te pego assim e faço
É por que eu faço mexidinho
Faço gostosinho e fim de papo”

No enredo da música, temos uma mulher que chega em casa na “ponta dos pés”, pois estava na noitada enquanto o marido, completamente submisso a ela, dormia. Cômico e subversivo, nos mostra como quebrar estereótipos e dar voz as mulheres que sempre estão na posição de submissa ao homem, que é sempre o “bandidão”, “vagabundo” e “que namora todo mundo”.

Em uma entrevista sobre a cantora Naiara Azevedo, uma estudante opinou: “Na faculdade, todas as meninas adoram a Naiara porque é a resposta para as músicas machistas que os caras adoram. Não dançamos mais no som dele, agora é do nosso jeito, com uma mulher cantando e nos defendendo”. Puxando um gancho com o comentário conclusivo feito pela estudante, fica aqui uma crítica positiva para nossas cantoras.

Apesar de toda representatividade feminina que elas inserem nas canções, assim como na voz dos homens, algumas letras ainda ecoam com teor machista e com uma imagem negativa da mulher, geralmente da “amante” “a outra” “a inimiga”, mas isso pode ser mudado e pouco a pouco a voz das mulheres do sertanejo irá “empoderar” as minas cada vez mais. Um passo de cada vez e chegaremos lá: do sertanejo feminino para o sertanejo feminista, quem sabe?

(Informações biográficas foram retiradas de sites oficiais e blogs)

Maraísa chegou a ouvir de um empresário certa vez que: “Menstruou, não faz sucesso”, “Hoje ele está à procura de cantoras para seu escritório.” retirado de: http://veja.abril.com.br/noticia/entretenimento

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